Irreligiosos

Se você não sabe, aceita e não questiona, embota-se e acaba virando crente.

Pesquisas recentes sobre reencarnação... depois destas, o que se conclui?

NA: O tema proposto para discussão é altamente complexo e controverso, dividindo opiniões de cientistas, pesquisadores, religiosos e irreligiosos. Entendemos que essa questão não pode ser negada e nem confirmada "a priori", sem uma profunda discussão e confronto de argumentos. E aos possíveis debatedores, nunca é demais lembrar que, entre os fatos e os argumentos (por melhores que sejam), deve-se preferir os fatos. Recomenda-se também que seja examinado todo o material existente sobre o assunto e já publicado aqui nesta rede, inclusive o do próprio autor: matérias de blog (10), fóruns de discussão (48, com 5 sobre espiritismo) e vídeos sobre reencarnação (6). Para isso, basta entrar em cada seção (blog, fórum ou vídeos) e digitar o termo "reencarnação" na caixa de pesquisas.


Estariam as crianças que alegam memórias de vidas passadas fantasia...

O artigo original está disponível em:
The Journal of Nervous and Mental Disease
Vol. 183, No. 7 Printed in U.S.A.
Copyright © 1995 by Williams & Wilkins


Em várias partes do mundo, particularmente na Ásia, podem ser encontradas crianças que alegam se lembrar de eventos de uma vida anterior de quando nasceram. Estas crianças costumam começar a falar sobre suas memórias logo após iniciarem a falar sentenças curtas, ou por volta de 2 a 3 anos de idade. Elas falam sobre e persistentemente acerca de suas vidas prévias até em torno dos 5 anos, quando as memórias aparentemente começam a declinar e parecem, na maioria dos casos, serem esquecidas em seguida.

Estas memórias mostram alguns traços recorrentes. Por exemplo, as crianças frequentemente alegam ter sofrido uma morte violenta (tal como por acidente), ou ter morrido subitamente; geralmente mostram fobias ou filias as quais elas relatam modos de vida ou eventos que alegam ter feito numa vida passada e, em alguns casos, elas têm deformações ou marcas de nascença, as quais as crianças ou seus pais costumeiramente relacionam à forma da morte na vida anterior. A maioria das crianças descreve suas alegadas memórias de maneira razoável e consistentemente e são persistentes em suas afirmações. Elas pedem para visitar o local ou a família onde dizem ter vivido antes e, na maioria dos casos, mencionam o local, que frequentemente distam de poucas a dúzias de milhas de seus lares. Em quase todos os casos, a vida que elas descrevem parece ter terminado num período relativamente curto de tempo antes delas nascerem, tipicamente não mais que poucos anos.

O Dr. Ian Stevenson tem investigado meticulosamente um grande número desses casos, que ele se refere como Casos do Tipo Reencarnação (CORTs). Suas investigações têm se centrado na questão da veracidade das afirmações feitas pelas crianças. As repetidas e às vezes clamorosas afirmações que os sujeitos fazem acerca das alegadas vidas prévias frequentemente embaraçam-lhes de formas indesejáveis com outros membros de suas famílias. Por exemplo, algumas crianças negam que seus pais sejam seus pais e exigem serem levadas aos seus "verdadeiros pais", que, elas podem dizer, amaram-lhes mais. Um pequeno número de sujeitos realmente tenta deixar o lar para encontrar a família prévia por si próprio. Algumas crianças podem irritar-se com as circunstâncias humildes de suas famílias e gabarem-se de ter tido a melhor comida, vestuário, servos, etc. na vida anterior. Pais em culturas com crença na reencarnação não se surpreendem frequentemente com as afirmações das crianças, pois acham que ele ou ela está fantasiando, mas num número substancial de casos, eles ficam aborrecidos com as crianças em razão do conteúdo dito pela criança e pelo comportamento incomum dela relacionado.

Nos últimos 6 anos, Haraldosson tem feito uma detalhada investigação de 27 novos casos que encontrou no Sri Lanka, um dos países onde alguns casos podem ser encontrados a cada ano. Uma pequena parte dos casos tem mostrado um impacto semelhante entre as afirmações da criança e fatos da vida de alguma pessoa que foi identificada e que vivera antes do nascimento da criança, às vezes numa distante comunidade. Em outros casos - e eles são muito mais freqüentes no Sri-Lanka - ninguém correspondendo às afirmações da criança foi encontrado em relação à vida prévia. A questão de se estas alegadas memórias referem-se, de fato, a eventos reais na vida de pessoas que viveram antes da criança nascer não será discutida agora.

Interpretações postas em esforços para explicar os elementos verídicos dos casos mais impressionantes têm incluído coincidência entre as afirmações da criança e fatos da vida de algum falecido, paramnésia, percepção extra-sensorial pela criança de eventos da vida de algum falecido, e a teoria da Reencarnação, que é a interpretação mais comumente aceita nos países onde estes casos são encontrados. Não é fácil apresentar teorias psicológicas adequadas para explicar o surgimento dessas alegadas memórias das que crianças falam como tendo outra memória. Por outro lado, os seguintes fatores psicológicos e sócio-psicológicos podem ser esperados para dispor uma criança a alegar memórias de uma vida anterior: uma fantasiosa vida rica, uma necessidade de compensar o isolamento social, alta sugestibilidade (em culturas onde a crença na reencarnação constitui um papel maior), tendências dissociativas, busca por atenção e relações perturbadas com os pais (causando a criança o clamor de que pertence a qualquer outro lugar).

A Dra. Antonia Mills tem, juntamente com Patrick Fowler, exposto a teoria de identidades alternadas (AIs) em crianças. Esta assume que crianças, em todas as culturas, atravessam um período sensitivo dos 30 aos 90 meses para o desenvolvimento de identidades alternativas. Durante este período sensitivo, AIs devem ter um lugar vívido na vida da criança. Em torno do fim desse período e após, AIs declinam da consciência da criança. Em países onde a crença na reencarnação não é parte da religião dominante, a AI pode tomar forma de amigos imaginários, ao passo que em países com uma forte crença na reencarnação, crianças criam imagens e memórias de uma personalidade prévia. Nos últimos, AIs não são consideradas fantasias, mas memórias. Identidades alternadas são mais comumente associadas em crianças com características de personalidade que dispõem a criança desfrutar fantasia. Além disso, a ocorrência de uma AI pode depender da necessidade de escapar para a fantasia de circunstâncias abusivas ou assustadoras.

O principal interesse desse estudo é o desenvolvimento cognitivo e peculiaridades dessas crianças e o que pode dispô-las a fazer alegações sobre vidas anteriores. As habilidades e personalidades das crianças que reportam memórias de vidas anteriores diferem em algum modo importante daquelas de crianças em geral? Elas mostram uma maior tendência a confabular que outras crianças? São mais sugestíveis? São indicações de uma maior tendência para processos dissociativos do que em outras crianças? Estas são algumas questões que alguém gostaria de ver respondidas, algumas das quais de fato têm sido perguntadas em um review de um dos livros de Setevenson.

Crianças com memórias ativas do tipo vida anterior têm, na maioria dos casos, de 3 a 5 anos de idade. E poucos testes psicológicos objetivos existem para avaliar os fatores acima mencionados em crianças jovens. Uma complicação adicional é que estas crianças são em pequeno número e difíceis de encontrar, sendo que uma comparação significativa com outras crianças necessita de uma amostragem de tamanho adequado. No intuito de conseguir uma amostra suficientemente grande para este estudo (o qual continua relativamente pequena), todos os sujeitos disponíveis acima dos 13 anos tiveram que ser incluídos. Desde que alguns dos testes não poderiam ser usados em crianças abaixo dos 7 anos, as crianças de nossa amostragem variaram dos 7 aos 13 anos, Nesta idade, a maioria das crianças tem parado de falar a respeito das memórias de suas vidas prévias, mas todas haviam falado antes muito consistentemente durante um período de tempo.

Sujeitos

Os sujeitos foram 23 crianças do Sri Lanka que haviam relatado memórias de uma vida prévia (8 garotos e 15 garotas variando de 7 anos e um mês até 13 anos e um mês). Um grupo de comparação consistiu de um número igual de crianças da mesma idade, do mesmo sexo e da mesma vizinhança, mas que não havia falado de uma vida passada. A idade média por crianças com memórias foi de 9 anos e 9,5 meses e para o grupo de controle 9 anos e 8,7 meses. As crianças estavam espalhadas numa grande área do sul e do centro do Sri Lanka e igualmente moravam em cidades e zonas rurais. Dos 23 casos envolvendo alegadas memórias de vida prévia, 15 haviam sido investigados previamente pelo autor e relatos detalhados têm sido publicados sobre 5 deles Oito casos haviam sido investigados por Stevenson e seus associados, mas nenhum relato havia ainda sido publicado sobre estes.

Testes Psicológicos

As Matrizes Coloridas Progressivas, forma das Matrizes Progessivas de Raven, foram escolhidas para este estudo porque foram projetadas para uso com crianças jovens, pessoas idosas e estudos antropológicos com pessoas que não entendem a língua inglesa. A escala foi descrita como "um teste de pensamento claro e observação" e testa a capacidade para a razão por analogia. O Teste de Quadro Vocabulário de Peabody consiste numa lista de 175 palavras arranjadas em ordem de dificuldade crescente. Como cada item é lido para a criança, à mesma é mostrada quatro ilustrações preto-e-brancas numa página e pede-se para escolher o quadro que melhor ilustra o significado da palavra-estímulo oralmente apresentada. O teste foi traduzido para o Sinhalês por P. Vimala e foi administrado sem ser padronizado para crianças Sinhalesas. Em vez disso, um grupo de controle foi usado para comparação.

A Escala de Sugestibilidade de Gudjonsson foi desenvolvida "para avaliar as respostas individuais a questões dirigidas e instruções retorno (feedback) negativo quando solicitadas para relatar um evento factual de uma recordação". No início do teste, uma pequena história fictícia é lida ao sujeito, após a qual é pedido ao sujeito que relate o que é lembrado da história. Então 20 questões são perguntadas sobre o conteúdo da história, 15 das quais são sugestivas de alguma forma. Finalmente o sujeito é firmemente dito que ele ou ela havia feito um número de erros e que é, consequentemente, necessário passar pelas questões mais uma vez.

A GSS mede (1) a livre recordação (número de itens lembrados da história); (2) confabulações (número de itens oferecidos sobre a livre memória que não são achados na história); (3) sugestibilidade cedida sob pressão (números de itens dados antes do feedback negativo ser fornecido); (4) mudança de sugestibilidade (uma mudança distinta na natureza da réplica às 15 sugestíveis e 5 não-sugestíveis questões) e (5) sugestibilidade total ( a soma dos dados e das mudanças). Há duas formas de GSS; a história da forma 2 é mais apropriada para crianças. O teste foi traduzido pra o Sinhalês por Shanez Fernando e adaptado para crianças do Sri Lanka.

O questionário Checklist de Comportamento Infantil - Modelo do Professor - foi administrado para um dos professores da criança. O Modelo do Professor é desenhado para obter relatos dos professores sobre os problemas de seus pupilos, funcionamento adaptativo e performance escolar. A maioria dos itens no Modelo do Professor do Checklist de Comportamento Infantil são idênticos aos do Modelo dos Pais.

Método Estatístico

Os dados para esta amostra combinada de sujeitos e crianças-controle foram analisados pelo teste Wilcoxon de nível de assinatura par-combinado para análise de uma variável. A análise multivariada da variação foi conduzida nas maiores variáveis, das quais o coeficiente de correlação canônica é usado como um indicador do tamanho do efeito total (Johnson e Wichern, 1992). O programa SYSTAT foi usado para conduzir os cálculos (SYSTAT, 1992).

Procedimento

O autor, um intérprete, um psicólogo nativo e o motorista de uma van alugada visitaram cada sujeito sem aviso prévio na casa ou escola dele. Na maioria dos casos, alguns membros da nossa equipe já haviam entrevistado a criança e seus pais sobre o caso. Nas escolas, professores ajudaram-nos a encontrar uma criança-controle na mesma classe do sujeito a qual a data de nascimento estivesse mais próxima da do sujeito. Se o sujeito estivesse em casa, nós procuraríamos uma criança controle na mesma vizinhança que fosse a mais próxima em idade possível. Nós expressamos nossa gratidão com presentes de doces e canetas esferográficas a essas crianças e a outras da casa, geralmente quando a sessão terminava. Todas as famílias foram cooperativas e prestativas. O Modelo do Professor do CCI foi administrado quase um ano e meio depois dos outros testes/questionários.

Resultados

A inspeção dos principais resultados (veja tabela 1) revela que as crianças que alegam memórias de uma vida prévia parecem, geralmente, mais maduras que as outras crianças. Seus conhecimentos sobre palavras e o entendimento da linguagem (PPVT) é muito maior (z = 3.50, p < .001) e elas têm uma memória melhor para eventos recentes (GSS; z= 2.56, p < . 05). Os resultados das Matrizes Progressivas de Raven não são significativamente maiores para crianças com alegadas memórias de vida prévia (z = 1.85, NS), um resultado sugestivo de que as diferenças vistas não são devidas as a diferenças na capacidade de raciocinar por analogia. Crianças alegando vidas prévias não são mais sugestivas do que outras crianças (z = -1.43, N = 46, NS).
Não há indicações de que CORTs confabulam mais do que seus pares (z= -.67, NS). A performance escolar das crianças alegando vidas prévias é muito melhor que as do grupo de controle de acordo com a avaliação de seus pais, como indicado pelo Checklist de Comportamento Infantil (Wilcoxon z= 3.14, N=44, p< .02, todos os testes foram bi-caudais). Mais importante, os professores relataram um desempenho escolar muito maior (graus) para CORTs do que para seus pares (z = 3.02, N= 38, p< .01).
De acordo com seus parentes, CORTs são maiores não escala de Atividade Social do CCBL do que outras crianças (z = 2.64, N = 38, p< .01); elas aprendem mais, comportam-se melhor na escola e trabalham mais duro. Análises multivariadas das maiores variáveis, a saber, memória, confabulações, sugestibilidade total, PPVT, Raven, performance escolar e escore de problemas do CBCL- Modelo dos Pais - resultam em uma diferença total significativa entre controles e sujeitos (F7, 10 = 5.60, p< .01) com um tamanho de efeito, ou correlação canônica, de r*=.89.
De acordo com os parentes, CORTs aparentam consideráveis problemas comportamentais. O CBCL - Modelo dos Pais - revela um maior escore de problema (z = 3.48, p < .001) para o grupo alvo. É interessante notar que o número de problemas relatados varia particular e amplamente entre os CORTs (veja tabela 1). Na visão dos professores que observam as crianças apenas na escola, os CORTs não tem mais problemas comportamentais do que outras crianças (z=-.10, NS). Itens individuais da CBCL nos quais os CORTs são significativamente maiores ou menores que as crianças-controles são listados na tabela 2. De acordo com seus parentes, CORTs são mais argumentativos, gostam mais de estar a sós, são teimosas, faladoras, tendem a se machucar, são muito preocupadas com meticulosidades ou limpeza, exibem-se ou são menos "palhaças" e se envolvem menos com outras crianças. Mais ainda, elas são nervosas, tensas e sentem-se que têm de serem perfeitas e, às vezes, são confusas. Algumas dessas crianças se excitam, tendem a chorar mais e têm alguns medos, os quais parecem ser relacionados, em muitos casos, às suas alegadas memórias de vidas prévias.
Os CORTs femininos diferiram significativamente em três itens que não foram relatados por nenhum CORT masculino. Muitas das garotas CORT estavam expressando um desejo de ser um membro do sexo oposto e foram relatadas se comportar como o sexo oposto e guardando coisas desnecessárias. De acordo com os professores, CORTs diferem significativamente de outras crianças em sete itens na CBCL: mais significativamente, elas "sentem que têm que ser perfeitas". Outros itens que os pais indicaram significativamente altos não são significativos no Modelo do Professor.
É interessante notar que os professores relataram que CORTs se dão melhor com outras crianças, faltam à escola bem menos frequentemente, são menos desobedientes, são mais altamente motivadas e são menos explosivas e imprevisíveis em comportamento do que seus pares.
Discussão:
Os dados mostram que crianças que alegam memórias de vidas prévias, quando comparadas com a amostra de controle, têm maiores habilidades verbais, melhor memória e estão indo muito melhor na escola que seus pares. Elas exigem mais de si, da mesma forma que sentem que têm de serem perfeitas, um sentimento que também deve contribuir para sua melhor performance escolar. Elas são mais sérias como indicando por " brincar" menos do que o grupo de controle. Neste estudo, não há medida satisfatoriamente completa da inclinação para fantasia, mas o número de itens adicionados na memória livre à GSS foi usada como um indicador de confabulação.
Crianças alegando memórias de vidas passadas obtiveram menor escore nesta medida, mas não significativamente menor. Isso não dá suporta a hipótese de que tal inclinação faz com que as crianças mais comumente aleguem memórias de vidas passadas, embora crianças com uma rica vida de fantasia não necessariamente acrescentem "fatos" ao teste de memória verbal. As crianças que alegam memórias de vida passada são socialmente isoladas? Elas obtêm um maior escore para atividade social e são relatadas pelos professores como se entrosando bem com as outras crianças, o que deve argumentar contra qualquer alegação de isolamento. Elas são, entretanto, argumentativas, são consideradas teimosas e falam demais. Essas características, em balanço, não indicam isolamento social.
Por outro lado, elas também são frequentemente reservadas e gostam de ficar sozinhas. Na época da primeira investigação destas crianças, apenas três estavam sem um irmão ou irmã e em média elas têm de dois a três irmãos. Assim, não há sinal claro de isolamento social nos dados e não é suportada a hipótese de isolamento social dispondo as crianças a alegarem memórias de vida prévia. Os resultados da GSS mostram que o grupo alvo não tem maior sugestibilidade que seus pares. A hipótese de que alta sugestibilidade predispõe as crianças a memórias de vida prévia em culturas onde a crença na reencarnação desempenha um papel maior não é suportada. Seus escores modestos a normais de sugestibilidade, aliados a baixos escores para confabulações, parecem indicar que memórias de vida prévia podem ser internamente geradas, pelo menos inicialmente, e não podem ser influenciadas por outras pessoas.
Esta é a linha de observação do autor sobre essas crianças, as quais às vezes veementemente resistem aos esforços de seus pais em suprimir que falem de suas memórias, como no caso de Dilupa Nanayakkara, a qual a família Católica Romana tentou suprimir seus discursos sobre uma vida prévia. Também têm sido observado que estas crianças resistem à considerável pressão de seus pais para pararem de falar sobre as memórias. Deve, entretanto, ser acrescentado que a maioria dos casos de alegações dessas crianças aparenta encontrar suporte dos pais, especialmente se e após alguma pessoa ter sido identificada com a vida, que os pais vêm a acreditar, encaixar com as afirmações feitas pela sua criança.
O alto escore de problemas do nosso grupo alvo, como demonstrado pelo Checklist de Comportamento Infantil, traz questionamentos sobre as causas para seus problemas comportamentais, particularmente desde que elas parecem mais maduras que as outras crianças. Mais que qualquer coisa, elas são argumentativas, apreciam estar a sós, falam demais, são teimosas e se ferem com facilidade. Nesses aspectos, então, elas têm algumas características "oposicionais" claramente definidas. Alguém pode especular se estas características são causadas por sua persistência na alegação em suas alegadas memórias e, assim, causando dificuldades a parentes e outros, para os quais tais clamores são embaraçosos. Também, seus desejos por solidão poderiam inicialmente se ajustar a um desejo de estarem apenas com suas memórias ou seria porque elas sentem-se diferentes de outras crianças e pessoas como um resultado de suas alegações singulares? Tais questões permanecem para serem respondidas em estudos posteriores.
A Cautela deve ser observada na interpretação destas diferenças, porque não está claro se elas são a causa ou o resultado das alegadas memórias, especialmente visto que a maioria das crianças foi testada após terem parado de falar de suas vidas prévias. Várias diferentes abordagens podem ser feitas para a questão da realidade destas alegadas memórias. São elas confabulações, memórias reais ou subjetivamente genuínas, mas falsas impressões de fatos da memória ou reconhecimentos? Elas são, talvez, relacionadas à experiências de déjà vu, que têm sido definidas como "ilusões de percepção falsa de uma nova cena ou experiência familiar" (Wilkening, 1973, p. 56) e são relatadas por uma larga parcela da população geral (59% nos EUA, veja Greeley, 1975).
Subjetivamente, experiências de déjà vu envolvem memórias e reconhecimentos, como fazem alegações de memórias de uma vida prévia. O autor não encontrou estudos da estrutura da personalidade de pessoas que relatam experiências de déjà vu. Tais dados poderiam servir para uma interessante comparação com os dados obtidos aqui, embora experiências de déjà vu não sejam específicas para um grupo etário particular, tal como as memórias de vida prévia são, as quais são predominantemente alegadas por crianças dos 3 aos 5 anos.
Nós não temos um meio objetivo ainda para averiguar o que realmente se passa nas mentes dessas jovens crianças, mas é a impressão do autor de que elas estão sinceramente convencidas, pelo menos na maioria dos casos, da realidade de suas alegadas memórias, tão certamente do que a maioria das pessoas alegando déjà vu. Esta pesquisa mostrou que CORTs se distinguem claramente de outras crianças em vários aspectos; seus vocabulários e suas performance escolar são apreciavelmente maiores. De qualquer forma, as hipóteses apresentadas no início deste artigo não foram confirmadas, assim como confabulação, isolamento social e sugestibilidade foram consideradas. O alto escore de problemas no Modelo dos Pais do CBCL poderia indicar um relacionamento perturbado com os pais. Crianças argumentadoras, faladoras e perfeccionistas são certamente mais exigentes para seus pais que outras crianças. Contudo, isso não necessariamente leva a um relacionamento perturbador entre filhos e pais e alguns dos problemas experimentados pelos CORTs devem emergir devido à suas alegações de lembrar de uma vida prévia. Estes pontos precisam ser explorados posteriormente.
É necessário lembrar que, em seu estudo, Haraldsson não levou em conta fatores que aumentam a força e a solidez dos casos, como a precisão das informações fornecidas pelas crianças e marcas de nascimento. O autor se limitou apenas à investigação de aspectos psicológicos, cognitivos e comportamentais das crianças.

Recentes Estudos Sobre Reencarnação

 
por Jeffrey Mishlove

O European Values Survey explora diferenças e semelhanças nacionais, também concernentes a crenças religiosas que expressam suposições populares a respeito da natureza do homem e do estado ontológico da consciência. Estes pareceres diferem radicalmente da visão científica dominante, também em psicologia acadêmica. Os países Nórdicos variam consideravelmente em suas crenças sobre a vida depois da morte e sobre a reencarnação, com metade dos respondentes acreditando na vida depois de morte, e 43 por cento destes acreditando na reencarnação, o que também vai contra os pareceres estabelecidos pela Igreja cristã. Isto mostra a independência de autoridades científicas assim como de religiosas. Será um resíduo de crenças pré-cristãs, devida à exposição aos conceitos budistas e hinduístas, ou um sinal de pensamento independente? Meio século de regimes anti-religiosos na Europa Oriental não parece ter tido nenhum efeito importante nas crenças sobre a sobrevivência pessoal, e o European Values Survey mostra uma crença comum em reencarnação. [1]

Para obter um entendimento da função psicossocial da reencarnação entre os Drusos, entrevistas foram conduzidas com nove sujeitos masculinos que tinham experimentado a reencarnação (Notq) e com um ou dois membros de sua família. A análise destas entrevistas revelou que o princípio de Notq tipicamente ocorre em entre dois e cinco anos de idade. Cinco dos sujeitos tinham exibido angústia psicológica em sua infância a qual foi aliviada depois do Notq. Uma vez que a criança exibia indicações iniciais de reencarnação, tal como mencionar nomes que a família interpreta como de uma vida passada, a família toma um papel ativo em construir a história de vida passada e combinando-a a uma história real conhecida envolvendo uma morte trágica. Esta combinação cria uma nova ordem na vida da criança, da família e da família de vida prévia. Todos se se beneficiam desta nova ordem: a criança recebe nova atenção especial e amor e torna-se capaz de controlar e de manipular os pais; os pais são aliviados porque vêem a criança feliz, beneficiada pela atenção social e afeto que recebe; e o lamentar da família afligida da vida passada é aliviado pela confirmação de que a alma de seu filho perdido ainda vive. [2]

Em 1933 uma bem educada garota húngara de 16 anos, Íris Farczády, que tinha se aventurado extensamente na mediunidade, repentinamente sofreu uma mudança drástica de personalidade, reivindicando ser Lucia renascida, uma trabalhadora espanhola de 41 anos, dizendo por ela ter morrido naquele ano. Transformada em "Lucia", Íris falou depois em espanhol fluente, uma linguagem que ela aparentemente nunca tinha aprendido, nem tido a oportunidade de adquirir e não podia entender qualquer outro idioma. A Lucia permaneceu em controle desde então e, agora com 86, ela ainda considera que Íris foi uma pessoa diferente, que deixou de existir em 1933. Os três autores deste artigo encontraram Lucia em 1998 e uma gravação de entrevistas foi feita, sob auspícios da SPR. Tentativas foram feitas para localizar a reinvidicada família espanhola de Lucia, mas estas não foram bem-sucedidas. Enquanto o aspecto da reencarnação do caso não foi apoiado, aí permanece o quebra-cabeça de como Íris adquiriu seu conhecimento da linguagem espanhola, costumes e cultura popular, e por que Íris deve ter permitido ou se submetido a sua "substituição" por Lucia. [3]

Os casos mais impressionantes de crianças que reivindicam lembrar de uma vida passada estão sendo publicados com maior freqüência que os casos mais razoáveis, dando uma impressão distorcida dos fenômenos para os leitores. Trinta crianças que falam sobre uma vida prévia em resumo foram entrevistadas para um estudo psicológico no Líbano. Três crianças casualmente foram selecionadas para uma completa investigação de um total de 29 destas crianças (o caso de uma criança já tinha sido investigado). Num caso uma pessoa morta foi identificada cujas circunstâncias de vida assemelharam-se às declarações da criança. Em outro caso nenhuma pessoa adequadamente combinando com as declarações da criança foi achada, conseqüentemente verificar a correção de suas declarações foi impossível devido a razões práticas. No terceiro caso, a família da criança foi relacionada à suposta personalidade prévia, a qual podia ter dado a criança e a seus pais ampla oportunidade para aprender por meio normal sobre a personalidade prévia. Além do suposto aspecto da memória, alguns casos exibem perplexos fatores psico-fisiológicos e características comportamentais. [4]

As crianças que reivindicam lembrar-se de fragmentos de uma vida passada são achadas em alguns países. Várias explicações foram propostas quanto ao porque as supostas memórias se desenvolvem, variando de reencarnação à "recurso terapêutico". Este estudo põe à prova o papel de algumas características psicológicas e as circunstâncias em que as crianças vivem, tal como fantasia, sugestionabilidade, isolamento social, dissociação e procura de atenção. Para trinta crianças no Líbano que persistentemente tinha falado de memórias de vida passada, e para 30 crianças de comparação, foram administradas provas relevantes e questionários. O grupo alvo obteve contagens mais altas para devanear, busca por atenção e dissociação, mas não para isolamento social e sugestionabilidade. O nível de dissociação era muito abaixo em comparação a casos de múltipla personalidade, e assim clinicamente não relevante. Havia alguma evidência de sintomas similares a stress pós-traumáticos. 80% das crianças falaram sobre memórias de vidas passadas com circunstâncias de uma morte violenta (principalmente acidentes, baixas de guerra e assassinatos). [5]

As crianças que falam de memórias de uma vida prévia podem explicar marcas de nascimentos como relacionadas às feridas infligidas sobre elas na vida anterior. Este artigo informa o caso de uma menina de nove anos no Sri-Lanka que alegou ter sido fabricante de incenso e morrido num acidente de trânsito. Depois que a situação fora narrada, um fabricante de incenso foi identificado cuja vida correspondida a muitas das declarações daquela criança. Ele tinha morrido num acidente de trânsito dois anos antes do nascimento dela; e o relatório posterior à morte revelou que as feridas que ele sofrera foram na mesma área das marcas de nascimentos dela. [6]

Examinaram-se crianças no Sri Lanka que reivindicaram memórias de uma vida prévia. A personalidade e medidas psicológicas foram administradas a 27 pares de crianças entre 5,4-10,2 anos dentre as que alegaram e as que não reivindicaram memórias de vidas prévias. Os questionários sobre comportamento, desenvolvimento e ambiente familiar foram administrados aos pais delas. Os resultados mostram que crianças que alegam memórias de vida passada se saíam melhor na escola que seus pares e que não eram mais sugestionáveis que estes. A Child Behavior Checklist revelou que as crianças com memórias de vida prévia exibiram mais problemas comportamentais, incluindo características oposicionais, obsessão e características de perfeccionismo. A Child Dissociation Checklist mostrou que estas crianças têm tendências de dissociação, como mudanças rápidas na personalidade e freqüentes devaneios. A estrutura do ambiente familiar delas não diferiu mensuravelmente daquela das crianças que não alegam memórias de uma vida prévia. A influência da crença na reencarnação e a educação religiosa é discutida, à medida que crianças falando de uma vida prévia foram achadas principalmente entre famílias budistas. [7]

Foi realizado um relatório de caso descrevendo um indivíduo burmês com uma marca de nascimento rara e defeitos de nascimento pensados por pessoas locais serem ligados a acontecimentos acerca da morte do primeiro marido da mãe dele. A natureza do elo é explorada, incluindo a suposição de que uma ligação poderia ter levado a acontecimentos subseqüentes. [8]

Foram documentados três casos clínicos de gêmeos monozigóticos que se lembraram de uma vida prévia. No Caso 1, Vinod lembrou-se da vida de um pastor, e Pramod lembrou-se da vida de um pescador; ambos percebidos como sendo amigos. No Caso 2, ambos os gêmeos Narender e Surender Babu reivindicaram ter vivido numa aldeia vizinha numa vida prévia, como irmãos. No Caso 3, Indika e Kakshappa não reivindicaram nenhum relacionamento em vida prévia. Os resultados sugerem que a teoria da reencarnação ajuda a explica diferenças e semelhanças em gêmeos que não podem ser explicados por fatores ambientais e genéticos. [9]

No seguinte caso, um rapaz do Sri Lanka que fez várias declarações concernentes a uma vida prévia, entre elas, onde ele havia vivido e como foi morto quando viajou num caminhão por uma floresta. O rapaz associou duas marcas de nascimentos com suas memórias reivindicadas. Suas declarações foram registradas e publicadas, e depois uma pessoa foi achada na região cujas circunstâncias tinham correspondido às declarações do rapaz. As marcas de nascimentos corresponderam à situação de feridas da pessoa mais tarde identificada como a personalidade prévia. [10]

Outros relatos interessantes foram obtidos em três casos clínicos de crianças no Sri Lanka reivindicando terem sido monges em vidas anteriores. O processo de verificação das declarações feito por Duminda Bandara Ratnayake (b. 1984), começado aos três anos de idade e confirmado por membros da família, mostrou grande semelhança aos dados biográficos de Gunnepana Saranankara (d. 1929), um monge inciciante do Mosteiro Asgiriya que possuía um carro vermelho. Um 2º caso é de Sandika Tharanga (b. 1979), uma criança de pais católicos que exibia muitos comportamentos de monges. Gamage Ruvan Tharanga Perera (b. 1987) cantou estrofes em Pali em tenra idade; suas memórias suportam semelhanças próximas à vida de Ganihigama Pannasekhara [11]

Tentou-se aplicar a hipótese socio-psicológica (SPH) ao fenômeno da recordação de experiências de vida passada, chamado de "casos do tipo reencarnação" (CORT). O SPH supõe que uma criança que parece falar sobre uma vida prévia será encorajada a dizer mais. Isto orienta os pais a acharem outra família cujos membros venham a acreditar que a criança tem falado sobre um parente morto destes. As duas famílias trocam informação detalhadas, e elas acabam por creditar ao sujeito como ele tendo mais conhecimento sobre a pessoa morta do que realmente existiu. Doravante, baseado no SPH, esperar-se-ia que uma porcentagem mais baixa de declarações corretas, nos casos em que as declarações foram registradas antes das famílias serem encontradas (B) do que nos casos em que as declarações foram registradas depois das serem famílias encontradas (A). Todos os casos completamente investigados da Índia e do Sri Lanka, onde o número de declarações corretas e incorretas foi contado e registrado, foram usados. Isto forneceu um total de 21 casos de B e 82 casos de A. Contrariamente à expectativa, os casos B e A deram, aproximadamente, porcentagens iguais de declarações corretas e o número total médio de declarações foi mais baixo para os casos A. Assim, o SPH por si só parece incapaz de explicar CORT. [12]

Existem relatos de casos para três crianças na Índia que reivindicaram se lembrar de vidas passadas que envolviam mudanças de religião, do Hindu ao Muçulmano ou do Muçulmano ao Hindu. As crianças eram um indivíduo masculino e um feminino, ambos Muçulmanos, que se lembraram terem sido Hindus em vidas prévias e um masculino Hindu que se lembrou ter sido Muçulmano. Várias hipóteses normais e paranormais são consideradas para explicar os comportamentos das crianças, mas o autor conclui que a reencarnação parece ser a mais capaz para explicar todas as características. [13]


Caso de Nagina

Nagina nasceu em outubro de 1990 numa cidade no distrito Farrukhabad, U.P. Seu pai, Amaruddin, era um motorista em Tonga. A família pertencia à seita dos muçulmanos sunistas que não acreditavam na reencarnação. Eles eram membros da classe socioeconômica média para baixa. Quando Nagina estava perto de fazer 1 ano de idade e antes de começar a falar, ela costumava tentar se comunicar por gestos. Ela fazia um gesto de acender um fósforo e apontá-lo para sua cabeça. Este comportamento começou quando uma das tias de Amaruddin, que estava os visitando, pediu algum óleo para massagear sua cabeça. Nagina trouxe uma garrafa com querosene dentro. A tia disse ter se surpreendido, pois ela pediu óleo de mostarda e perguntou o que faria com querosene. Nagina então mostrou, pelo gesto, como ela (na vida prévia) despejou querosene em sua cabeça e se deixou queimar por um fósforo aceso. Com três anos, quando Nagina podia claramente falar, ela deu mais detalhes sobre uma vida prévia. Ela disse que ela era Oma, uma professora, e que ela teve duas filhas e dois filhos. Suas declarações também incluíram os detalhes de como ela teve uma briga com seu marido e se deixou queimar depois de se banhar com querosene.

Uma mulher chamada Oma Devi viveu algumas jardas de distância da casa de Amaruddin. Ela era casada e tinha quatro crianças: duas filhas e dois filhos. Ela era uma professora numa escola no distrito Etah, e seu marido vendia livros e imóveis em Mohammadabad. O casal não se dava bem. Em 19 de maio de 1987 eles tiveram uma briga séria; Oma Devi molhou-se com querosene e se sacrificou. Seu corpo foi completamente carbonizado; ela tinha na época 47 anos. Ao ouvir as reivindicações de Nagina, os filhos de Nagina Oma Devi foram para casa daquela. O filho mais jovem de Oma Devi expressou reservas sobre o caso, mas não o negou completamente. Seu filho mais velho estava seguro que Nagina era sua mãe renascida. Sua convicção derivou do comportamento de Nagina e do conhecimento desta a respeito de certos eventos na vida de Oma Devi que ele acreditava não ser conhecido por estranhos.

Comportamento incomum de Nagina: Nagina mostrava um comportamento que refletia sua preocupação com a maneira em que morreu em sua alegada vida prévia. Ela também exibia um comportamento ajustado aos filhos de Oma Devi e dava informações que não eram de domínio público. Quando o marido de Oma Devi morreu em abril de 1996, Nagina ficou muito angustiada (ela tinha mais ou menos 5 anos e meio naquela época).

Marcas de nascença em Nagina: os pais de Nagina, e também alguns outros informantes, noticiaram marcas sugestivas de queimaduras no corpo dela quando nasceu. Num exame em dezembro de 1995, duas marcas foram claramente observadas em seu corpo. Estas eram áreas hipopigmentadas sob o queixo de Nagina e na parte inferior de seu abdômen.

Caso de Naresh Kumar

Naresh nasceu em fevereiro de 1981 no povoado de Baznagar, distrito Lucknow, U.P. Seus pais eram Guruprasad e sua esposa, Bishwana. A família era de condição socioeconômica média para baixa e eles eram hindus. Com um ano ele começou a falar, Naresh costumava articular duas palavras, "Kakori" (nome de um lugar) e "kharkhara" (palavra local que designava uma carroça a cavalo). Quando tinha cerca de quatro anos de idade, ele deu detalhes sobre uma vida prévia. Ele disse que estava levando mangas em sua carroça quando colidiu com um veículo e então morreu; ele também disse que era muçulmano e que vivia em Kakori. Naresh costumava conversar sobre uma vida prévia sempre que alguém no povoado o perguntava.

Um faquir muçulmano chamado Haider Ali costumava ir a Baznagar toda quinta-feira para esmolar. Depois que Naresh começou a caminhar, ele costumava seguir Haider Ali em torno da aldeia. Naresh disse que Haider Ali era seu pai e que queria ir com este. Todo mundo na aldeia chamava Haider Ali de "Baba", mas Naresh costumava o chamar, "Abba" (pai). Haider Ali vivia em Kakori com sua família que pertencia à seita sunista do Islã. Ele casou duas vezes e teve um filho em seu primeiro casamento, três filhos e sete filhas no segundo. Mushir Ali era seu filho mais velho do segundo casamento.

Naresh era tão insistente em suas exigências para ser levado a Kakori que Bishwana decidiu pedir a ajuda de Haider Ali, pois que este era um muçulmano e vinha de Kakori. Haider Ali a aconselhou a levar Naresh a Mazar (tumba de um santo muçulmano) a fim de que parasse de falar sobre uma vida prévia. Os pais de Naresh o levaram a Mazar, mas isto não ajudou; Naresh continuou a falar sobre uma vida prévia e insistir em ir para sua casa prévia. Um dia ele mesmo começou a ir sozinho em direção à estrada. Eventualmente, Guruprasad decidiu levar Naresh, junto com algumas outras pessoas de Baznagar, para Kakori. Naresh parece tê-los conduzido à casa de Mushir Ali. Ao chegar a casa, Naresh reconheceu vários objetos que pertenceram a Mushir Ali, como um gorro e o conteúdo da mala de Mushir Ali. Ele também acreditou em ter reconhecido corretamente membros da família imediata de Mushir Ali, como também outros parentes e amigos. Naresh, quando questionado, contou-lhes sobre a conta bancária que a família tinha quando Mushir Ali morreu. Ele também mencionou o nome de uma pessoa que devia algum dinheiro a Mushir Ali. (a família reconheceu isto como verdadeiro e acrescentou que a pessoa em questão devolveu o dinheiro depois da morte de Mushir Ali.) Baseado nestas e em outras declarações, Naresh foi aceito como Mushir Ali renascido (o filho de Haider Ali).

Mushir Ali alugava uma carroça a cavalo e costumava levar legumes e frutas para o mercado; isso era o ganha-pão exclusivo da família na época de sua morte. Em 30 de junho de 1980, nas primeiras horas da manhã, Mushir Ali estava levando as mangas para o mercado em Lucknow em sua carroça. Ele estava um pouco mais de 2 quilômetros de Kakori quando sua carroça colidiu com um trator; morreu quase imediatamente. Ele tinha 25 anos de idade na época. A família de Mushir Ali não estava economicamente em uma situação melhor que a família de Naresh. Os outros irmãos de Mushir Ali, quando a Dra. Satwant Pasricha os encontrou em 1988, estavam crescidos e tinham seu próprio negócio de decoração o qual incrementava a situação econômica até certo ponto.

Comportamento incomum de Naresh: quando Naresh tinha cerca de 2 anos de idade, ele assumiu a postura de se ajoelhar e dizer Namaz. Ele tentava fazer isto quando estava só. E parava quando notava que outros estavam o observando. Naresh também brincava em comandar uma carroça a cavalo. Ele amarrava uma corda a uma cama e a empurrava, fazendo sons como se guiasse um cavalo. Ele também falava uma poucas palavras de Urdu.

Defeitos de nascimento de Naresh: Naresh tinha um defeito de nascimento, uma área deprimida próxima ao centro de seu tórax, ligeiramente ao lado direito. Isso fazia correspondência à fratura das costelas de Mushir Ali que foi reportada no exame pós-mortem. Sobre este caso de defeito de nascimento, Dra. Satwant Pasricha publicou um artigo em separado (Pasricha, S. K. Case of the Reincarnation Type in North India with Birthmarks and Birth defects. J.Sci. Explor 1998; 12: 259-93).

Vidas Passadas e o Cético

0 comentários
fonte: Paranormalia

Fui recentemente a uma palestra do editor da Skeptic, professor Chris French (muito surpreendente está na SPR, mas eu não entrarei nestef detalhe). Ele mencionou rapidamente que a última edição da revista contém refutação devastadora da pesquisa de Ian Stevenson sobre memórias de vidas passadas de crianças. Este tipo de alegação sempre prende minha atenção - pergunto-me se um crítico realmente poderia ter demolido num único artigo de revista o trabalho da vida de um dos principais pesquisadores psíquicos. Mas você nunca sabe, então pensei em dar uma olhada.

O artigo de sete páginas é de Leonard Angel, não é alguém que eu já topei antes, mas que eu sei que é um filósofo canadense, autor de Enlightenment East and West (1994). Seu livro contém um capítulo refutando a Parapsicologia e, especialmente, as pesquisas sobre vidas passadas de Stevenson, que também é o assunto de um artigo de Angel na Skeptical Inquirer, por volta da mesma época. Na parte anterior ele se enfoca em falhas metodológicas. Ele ataca o caso libanês de Imad Elawar, em Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação, acusando Stevenson de falhas grosseiras nos seus métodos de pesquisa, nas descrição dos dados e na análise de hipóteses e alega uma 'infeliz insensibilidade para assuntos centrais na reunião dos dados, da apresentação e da interpretação'.

Eu não tenho Vinte Casos em mãos, então não posso realmente dizer o quão bem seus argumentos foram levantados. Minha sensação sempre tem sido que os métodos de Stevenson são abertos à crítica, mas que este tipo de afirmação abrangente de um cético raramente se revela como algo justificado. A refutação de Stevenson na revista não contribui muito, depois de reclamar sobre 'sérias omissões' e 'ênfase inapropriada', somente cobriu um dos pontos de Angel (Stevenson disse que não recebeu espaço suficiente para fazer mais). Porém ele foi atacando, até onde ele pôde.

Angel tem criticado Stevenson por este ter, no caso de Imad Elawar, confiado no testemunho de um indivíduo em particular, que era o comprovador dos 28 itens de informações. O fato de um destes ter sido contraditado por outra pessoa, pensa Angel, é razão para considerar aquele sujeito não confiável. Stevenson responde que ele mesmo sentiu a necessidade de conseguir mais confirmação das declarações desta testemunha e fez uma viagem de busca ao Líbano no ano seguinte com este específico propósito - apenas cinco dos 28 itens foram feitos somente por aquela testemunha. Isto é claramente dito no livro, e Stevenson considera uma falha de Angel mencionar isso como 'mal considerado, malicioso e descuidado'.

Nesta nova parte, Angel questiona o grau de correspondência entre as declarações feitas pela criança e as circunstâncias da alegada vida prévia. Ele reclama que Stevenson ignorou uma das doutrinas mais fundamentais da ciência, que é eliminar a 'hipótese nula' antes de alimentar uma interpretação paranormal.

...Eu estou sugerindo que se alguém observar muitos grupos de correspondências entre uma vida e outra vida anterior, e abstrair um pouco delas de forma que pareçam com alegações de memórias de vidas passadas, e então aleatoriamente misturá-las com a evidência sobre memórias de vidas passadas, semelhantemente abstraídas, e então colocar sujeitos - pessoas comuns ou cientistas - para fazer adivinhações sobre qual precisa de uma explicação especial - então haveria uma distribuição de mero acaso.

Angel fica impressionado por uma lista de correspondências entre sua própria biografia e a de Stevenson, como registrado num obituário deste publicado no NY Times. Ele considera que algumas pessoas poderiam chamar estas correspondências de notáveis, entretanto, de fato, elas não seriam. A lista inclui que ambos nasceram em Montreal, conseguiram um grau na McGill University, foram casados duas vezes, tiveram uma mãe interessada em espiritualidade, viveram numa casa com uma grande biblioteca, e assim por diante. Seu ponto é que, se você começar a procurar por alguém que se ajuste a estes tipos gerais de características, você poderia ter sucesso, mas não significaria que o sujeito realmente tenha uma vez sido aquela pessoa.

Para investigar isto, Angel sugere uma experiência direcionada a descobrir se ou não a coleção fortuita de material sobre pessoas gerarão tantas correspondências com possíveis vidas passadas assim como elas iriam com supostas memórias reais de vidas passadas. Várias correspondências seriam geradas, algumas das quais não seriam plausivamente idealizadas para serem geradas paranormalmente (o grupo de controle) e aquelas que Stevenson e algumas outras pessoas poderiam pensar serem paranormais (o grupo experimental). Sujeitos cegos deveriam adivinhar quais correspondências vieram de que grupo. Se não existir nenhuma correlação estatisticamente significativa entre os casos adivinhados como vindo do grupo experimental e daqueles que realmente vieram dele, como suspeita Angel que será revelado, então não existe nenhuma razão para considerar algo de paranormal em tais casos.

É uma idéia interessante, e qualquer abordagem experimental que possa ajudar a pôr este tipo de pesquisa de campo num fundamento científico mais sólido pode mesmo ser uma boa coisa. Mas eu realmente não entendi a relevância disso para o trabalho de Stevenson. As correspondências de Angel sobre ele e Stevenson são muito gerais, e muitas delas não se relacionam a outras pessoas, lugares ou circunstâncias, mas meramente a duas idéias sobre os homens. Porém, isto não é típico dos melhores casos do tipo reencarnação, que estão persuadindo justamente porque algumas das declarações da criança, que foram subseqüentemente encontradas para combinar com as circunstâncias de uma pessoa falecida, são muito, muito particulares.

Em Children Who Remember Previous Lives, Stevenson descreve o caso do Sri Lanka sobre uma menina de três anos que disse lembrar de ter vivido numa cidade chamada Kataragama, e que seu pai possuía uma floricultura, era calvo e vestia um sarongue. Se isso fosse tudo, e era típico de tais casos, então Angel poderia ter um ponto. Mas a criança também disse que na vida prévia seu pai era chamado Rathu Herath e que ela se afogou depois de ser empurrada num rio por um menino, e não apenas qualquer menino, mas um que era mudo - um conjunto de circunstâncias que certamente não poderiam ser razoavelmente organizadas para se aplicar a mais de uma pessoa.

Ou considere o caso de Sunil Dutt Saxena na coleção de casos da Índia de Stevenson. Ele disse que costumava viver numa certa cidade, numa grande casa com empregados, e que ele possuía um refrigerador, um rádio e outros artigos de luxo - todas coisas geralmente bonitas. Ele alegava ter tido uma fábrica e ter sido casado, e que suportava isso um pouco. Mas ele também disse que tinha sido casado quatro vezes e que ele fundou uma faculdade, que foi depois chamada pelo nome dele, e foi nomeado um diretor, que era um de seus melhores amigos. No mesmo volume está o caso de Jagdish Chandra que, entre outras coisas, mencionou os nomes do pai e do irmão de sua personalidade prévia, declarou corretamente que o irmão morreu de envenenamento e identificou o local de um cofre onde seu pai guardava o dinheiro.

Nestes três casos, e outros que foram 'resolvidos', famílias foram encontradas nas quais a vida de uma pessoa recentemente falecida combinava com as declarações da criança, em circunstâncias que pesquisadores amplamente dizem que impediram qualquer explicação, salvo a paranormal. (No caso de Jagdish Chandra, por exemplo, seu pai, um advogado, escreveu todos os itens relevantes antes da publicidade para ajuda a localizar uma pessoa a quem eles poderiam ser aplicados).

É verdade que nós estamos fazendo um juízo subjetivo sobre que tipos de correspondências podem ser julgadas a apontar para um processo paranormal. Isto é um dos grandes assuntos na Parapsicologia, e que envolve exatamente este tipo de comparação inexplicável - nas declarações de médiuns, em casos telepáticos e aparicionais, nas percepções fora-do-corpo e assim por diante. E, em princípio, é algo que precisa ser tratado, com o uso de grupos de controle, por exemplo. Mas eu suspeito que a razão dos pesquisadores não darem a todas estas categorias muita prioridade é porque as informações que são combinadas são freqüentemente muito específicas para serem um assunto de coincidência ao acaso. A razão de céticos insistirem nisso é porque eles não lêem a pesquisa, então eles não a conhecem. (eu não posso acreditar que o 'argumento de leitura fria relativa a médiuns poderia sobreviver a um conhecimento detalhado do material de Leonora Piper, por exemplo, mas céticos quase não parecem cientes da existência deste conteúdo)

Apesar disso, Angel argumenta muito vigorosamente que Stevenson falhou até para considerar uma experiência do tipo que ele sugere e que isso é uma indicação que ele não se importava com o método científico. Isso deu permissão para criticar sua credenciais - ele usa palavras como 'fraqueza' e 'negligência'. É bastante claro que Angel não pretende que isto seja uma crítica construtiva - surpresa, surpresa - à medida que diminuindo o trabalho de Stevenson, desencoraja outras pessoas a levá-lo seriamente, e dá alegria aos céticos e para si, que são os que profundamente se sentem desconfortáveis com as implicações.

Apenas para termos certeza, nós pegamos o ponto de Angel e construímos o artigo na forma de diálogo, em que o pesquisador é retratado como ranzinza e evasivo, se debatendo sob o ataque de nosso incisivo herói. Stevenson é retratado para sair indignado sempre que o interrogatório se torna muito quente, retornando acanhadamente todo o tempo para enfrentar seu atormentador. Um exemplo:

LA: Então você pensa que uma sucessão de investigações de casos como você conduziu por mais ou menos quarenta anos é suficientemente científico?
IS: Sim. É isso que eu acabei de dizer.
LA. Verdade, é isso que você disse. Mas me parece que você somente pode olhar como se fosse científico. Talvez você não tenha seguido a regra mais básica da investigação científica.
IS: Por favor! Sugerir que eu falhei em fazer a coisa mais básica é absurda...Isto é tolice... Eu estou indo. Então você não poderá conversar mais comigo.

Como sempre, este tipo de coisa me leva a especular sobre os próprios processos de pensamento do cético. Ele não pode por um minuto aceitar as reivindicações, porque elas contradizem o conhecimento e as suposições que ele acredita serem inexpugnáveis. Então sua mente começa a gerar uma estratégia defensiva. Isto envolve fixar-se sobre uma idéia em particular, e levantar seletivamente elementos que parecem sustentá-la, enquanto bota pra fora aquilo que rapidamente a refutaria. Uma vez que ele próprio se deslocou da pesquisa, a estratégia de oposição que germinara está agora livre para florescer em seu próprio ambiente, indesafiável a quaisquer restrições. Só precisa ser incitada, de um modo que represente o pesquisador como um cretino, para restabelecer uma sensação de equilíbrio emocional nele e em seus leitores acerca de uma mesma opinião.

Isto não sugere que o trabalho de Stevenson e de outros pesquisadores no campo não deveriam ser desafiáveis, ou que abordagens experimentais que poderiam fortalecer este tipo de pesquisa de campo não podem ser encontradas. É difícil para muitas pessoas - e eu me incluo - ler os relatórios sem constantemente questionar as declarações e, pelo menos, às vezes, desejar informações extras e confirmatórias. Elas, sem rodeios, são incríveis. Mas nós prontamente podemos distinguir entre uma sugestão construtiva e uma cujo propósito real é apenas fazer propaganda cética.

Consequências da descrença na reencarnação e na vida após a morte

5 comentários
André Luís N. Soares
Graduado pela Faculdade Nacional de Direito - UFRJ
aandreluis@ufrj.br

Você, caro leitor, crê na vida depois da morte? Não! Então talvez você corra realmente um risco de extinção. Nas pesquisas do dr. Ian Stevenson, alguns padrões do processo reencarnatório - admitindo a reencarnação como a verdadeira interpretação para os casos sugestivos de lembranças de vidas passadas - parecem responder ao perfil psicológico dos membros de uma comunidade; como local, taxa de intermissão, sexo e contexto familiar, mas possivelmente não são os únicos. Renascimento e sobrevivência podem ser opções para a personalidade humana que deixam de estar - ou talvez ainda não sejam - disponíveis para aqueles que não acreditam ou, quando menos, tal descrença inibe a possibilidade de experiências conscientes durante o intervalo de uma vida a outra. Isso, prima facie, pode parecer terrorismo - concordo -, mas explico abaixo as proposições filosóficas que podem ser articuladas de acordo com algumas evidências provenientes das pesquisas psíquicas.

Nos casos pesquisados por Stevenson as distâncias médias entre residência prévia e local de renascimento giravam em torno de 45 km. Nos dados da pesquisadora de vidas passadas, Satwant Pasricha, a mediana cai para 8 a 10 km (European Journal of Parapsychology, 3, 51-65). Taxa de intermissão ou, se prefirir, intervalo, é o tempo que o sujeito demorou a reencarnar. É o que os espíritas chamam de erraticidade. Stevenson verificou que a média de intermissão na Tailândia era de apenas 6 meses; no Sri Lanka obteve-se 1 ano e meio; na Birmânia, 1 ano e 9 meses. Quanto à mudança de sexo, países em que a cultura diz não ocorrer, não se encontraram resultados. No entanto, países como Birmânia, Tailândia, Sri Lanka e Índia, há registros de 29%, 13%, 9% e 3%, respectivamente. Quanto ao contexto familiar, quase todos os casos dos índios tlinguite, no Alasca, as crianças reencarnam na mesma família, ao passo que quase todos os índios asiáticos reencarnam fora dela. Mas o que tem a ver todos esses dados? Bem, o que se sugere é que o perfil cultural, a crença em determinados fatores, influencia de modo direto as características do processo de reencarnação.

Países onde se acredita numa reencarnação rápida, os casos do tipo reencarnação, em média, trazem períodos de intervalo menor. A própria distância entre o local de vida da personalidade prévia do de seu renascimento parece encontrar uma identidade cultural. O que acontece então com sujeitos pertencentes a cultura não-reencarnacionistas? Sugiro que essa questão seja desdobrada em duas partes: a) indivíduos que acreditam no além-túmulo, mas não crêem na reencarnação; b) pessoas que não acreditam na reencarnação e nem na sobrevivência de sua personalidade após o aniquilamento corporal. Lembro a você neste momento a advertência que fiz no início, ou seja, que consideremos que a reencarnação seja realmente um fato.

Indivíduos que acreditam no além-túmulo, mas não crêem na reencarnação

Indivíduos que aceitam a continuidade da vida, mas negam a reencarnação, podem apenas demorar um tempo maior para reencarnar. Se na Tailândia, onde há a crença no renascimento de modo quase imediato, o intervalo de tempo médio é de 6 meses, talvez pessoas que repelem a reencarnação demorem algumas décadas, ou até séculos, para renascer. Se existe alguma vantagem em estar do lado daqui, em termos de progressão do espírito, a descrença pode acarretar um atraso à evolução pessoal. De qualquer maneira, como nestes casos, do outro lado, a consciência está desperta, pode o sujeito mudar de postura.

Pessoas que não acreditam na reencarnação e nem na sobrevivência de sua personalidade após o aniquilamento corporal

Colocando a sobrevivência dentro de um contexto evolucionista, a par da ainda raridade de casos que sugerem a permanência individual após à morte, como relatos mediúnicos, casos de reencarnação, experiências fora do corpo, aparições, parece ainda a faculdade humana de transcendência estar dando os seus primeiros passos ao invés de ser uma característica já estabilizada. Talvez sobreviver à morte seja algo emergente e que ainda não se sedimentou em nenhuma espécie de vida terrena. O que os metapsiquistas chamavam de evolução anímica e os parapsicólogos de hoje chamam PSI, a fim de explicar psicocinesia e modalidades de percepção extra-sensorial, quem sabe não seja um sistema sensório transcendente em vias de complementação. Assim nem todos os seres devem sobreviver. Certo? Talvez, mas não é o que se sugere. O que pretendo dizer – e acho mais coerente - é que a sensação de sobrevivência do ego é emergente, mas que alguma forma de permanência e renascimento sempre estiveram presentes. Assim, rudimentarmente, a crença budista na doutrina Anatta (não-eu), na qual a alma é substituída por uma espécie de eterna energia psicobiofísica, destituída de personalidade, que migra para um novo corpo, pôde ter sido verdadeira nos primórdios da evolução, como pode ainda ser uma realidade para uma vastidão de seres, inclusive ainda no homem.

Os estados religiosos que algumas pessoas experimentam espontaneamente, assim como experiências místicas, situações eventuais de experiências transcendentes, como EQM e, acima de tudo, uma forte crença na existência do além, podem favorecer, através de uma indução psicológica, a exteriorização do ego dentro daquela energia que transmigra de um corpo a outro. Indivíduos que acreditam no post-mortem permanecem com sua personalidade ativa; os que não crêem, ficam com ela em estado de latência, até uma nova oportunidade em sua próxima existência. Há algumas pesquisas que concluem que a crença em Deus e na espiritualidade é um aspecto evolutivo de cunho social que favorece a comunhão dos seres, facilitando a convivência harmônica. Talvez não seja essa a única vantagem adaptativa, mas que haja realmente um lucro de cunho naturalístico: a sensação de continuidade após à morte.

Últimas Considerações

A grande utilidade de sobreviver é sentir que se continua a viver após a morte. Morrer e renascer imediatamente, de maneira infindável, não traz recompensa psicológica nenhuma. E, num sentido prático, quase não difere do materialismo puro. Embora nossa personalidade, numa mesma vida, mude com o tempo, nós sabemos que continuamos a ser quem somos graças a sensação de continuidade. A natureza do ego é transitória, mas o precedente sempre influencia no consequente, sendo o atual, aquele que nos define neste exato momento, influenciado por todos os egos que já possuímos, inclusive os que experimentamos em vidas passadas, e sentimos apenas reflexamente nesta vida, através de nossas inclinações, que não se circunscrevem apenas por critérios culturais, como a educação que recebemos. A negação da vida após a morte não impede que lembremos de vidas passadas, mas obstaculiza termos experiências durante o período de intervalo. Você pode me perguntar qual a diferença daquele que tem crença numa reencarnação imediata para o que não acredita no post-mortem? Eu diria que seria a possibilidade, quanto ao primeiro, de chegar a ter experiência consciente durante a intermissão, embora possivelmente curto, de meses, dias, ou até horas, dependendo do grau de influência psicológica que sua crença impregna sua psiquê. Acredito que seja possível, a par das supras evidências em pesquisa psíquica, inferir que a sensação de sobrevivência e a possibilidade de ter experiências conscientes após a morte corporal possam talvez ser situações emergentes e universais na natureza, mas ainda não plenamente estabilizadas. Pode acontecer também que o sujeito alterne ciclos de atividade/inatividade de sua personalidade após a morte, dependendo do rumo que deu a si quanto à questão da sobrevivência, durante suas últimas jornadas reencarnatórias. Mas pode ser também que algumas pessoas ainda não tenham vivenciado uma experiência consciente, com a permanência de sua personalidade, após o desencarne, migrando ainda na concepção pura da Anatta budista. Mais que apenas uma questão cultural ou de evolução, descrer numa vida após a morte pode responder àqueles que objetam que Deus não nos deu livro arbítrio de não querer existir. Se nossas convicções podem influenciar o nosso destino espiritual, como os dados em pesquisas de reencarnação sugerem, crer pode ser um “sim” a pergunta se desejamos viver ou, pelo menos, termos consciência disto.

Problemas com o trabalho de Stevenson? uma justa e rápida lembrança...

0 comentários

André Luís N. Soares

Graduado pela Faculdade Nacional de Direito - UFRJ
aandreluis@ufrj.br

Alguns críticos costumam apontar a maleabilidade da memória humana como um grande problema nas pesquisas de Ian Stevenson, maior pesquisador sobre casos sugestivos de reencarnação, recentemente falecido. Sustentam que as recordações de supostas vidas passadas não passariam de falsas memórias da pessoa que alega uma vida prévia, ou seja, o sujeito acredita realmente que tenha vivido uma experiência, porém essa “lembrança” não passaria de um dirigismo provavelmente inconsciente a coisas que na verdade nunca aconteceram. Um bom exemplo disso seriam os casos de pessoas vitimadas por abuso sexual e que reprimem memórias passadas através da construção de lembranças de um “novo passado” que de fato não existiu. Soma-se a este argumento a característica de que as pesquisas sobre CORTs (Cases of Reincarnation Type) são eminentemente de campo, poderíamos então acrescentar aí a possibilidade de falhas nos relatos das testemunhas e a indução dos depoimentos a uma interpretação reencarnacionista, haja vista a maioria dos casos estarem presentes em países que têm o renascimento como um dos elementos culturais.

Acontece que falsas memórias costumam aparecer como um mecanismo de defesa psicológico. Não se pode nem dizer que grande parte das pessoas que reivindicam uma vida prévia esteja passando por problemas pessoais, mesmo que tenham vidas difíceis em países subdesenvolvidos, como o Sri Lanka ou Turquia. É lógico que pode haver falsa memória dissociada de qualquer problema psicológico, no entanto, nesta hipótese, ela seria referente a um fato específico. Os casos do tipo reencarnação maciçamente constroem uma verdadeira história, com muitas lembranças, reconhecimento de parentes, locais, sentimentos, e ainda sugerem xenoglossia e marcas de nascença que correspondem ao local do ferimento que levou à morte a personalidade anterior etc.

Quanto à questão cultural, remeto o leitor ao texto de Titus Rivas, Amnesia: The universality of reincarnation and the preservation of ..., o qual confere ótimo raciocínio sobre a universalidade da reencarnação, abordando, inclusive, a diferença cultural entre países ocidentais e orientais.

Quanto a erros nos depoimentos, muitos foram tomados em tempo consideravelmente curto e gravados em áudio, o que evita os defeitos de memória. Stevenson realmente parece, em que pese ser possível a falha humana, pretender colocar todos os fatores em jogo, como por exemplo no caso Indika Guneratne, no Sri Lanka, com cerca de três anos de idade alegava ser um rico comerciante de madeira, em Matara. Stevenson pesquisou as afirmações de Indika, anotadas por seu pai, e relata a existência de alguns erros, como a não existência de dois elefantes e de uma Mercedes Benz. Indika lembra o número de registro do carro, e apesar de corresponder aquele veículo, não pertencia a ninguém que vivera em Matara. Quantos aos elefantes, o número correto era apenas um. Assim, é importante fazer o contraponto de que, se defeitos de memória podem ser preenchidos por ilusões, eles também podem ser responsáveis pela redução da qualidade de lembranças reais, trazendo imprecisões que, se não existissem, o caso tornar-se-ia cem por cento coeso.

Leonard Angel, ao criticar o trabalho de Stevenson, faz as mesmas assunções acima. Fala da possibilidade de defeitos nos relatos e ainda acusa Stevenson de forçar dados para encaixá-los na teoria da reencarnação. Critica o caso Imad Elawar, tido como um dos mais fortes a favor da sobrevivência. Não acredito em uma possível manipulação de dados. Acho muito desproporcional uma alegação desta. Stevenson publicou casos que complicam substancialmente a idéia comum sobre reencarnação, como o de Jasbir Lal Jat e sua suposta personalidade prévia, Sobha Ram, que morrera quando Jasbir já havia nascido. Jasbir é vitimado por varíola e, após quase morrer, volta para casa alegando ser Sobha Ram, fazendo 39 declarações comprováveis de sua vida anterior. O caso mais sugere possessão espírita, no entanto, é difícil aceitar a idéia de uma possessão eterna, haja vista a mudança comportamental de Jasbir desde então. Teria Jasbir morrido de varíola e Sobha Ram, que morrera aos vinte anos de idade, reencarnado em um corpo já formado? Outro exemplo é o do sobrinho de Said Bouhamsy e de Elawar. Os dois, que se desconheciam, alegaram ter sido Said Bouhamsy. Poderia uma personalidade se desmembrar e reencarnar em mais de um corpo simultaneamente? Stevenson poderia ter simplesmente suprimido a publicação destes casos ou evitar propalá-los.

Scott Rogo também acusou Stevenson de suprimir dados no caso Mallika - precisamente a de que o pai e avô da menina negaram publicamente sobre os comportamentos da menina - e também de forçar os dados no caso Imad, no entanto, Rogo declara-se impressionado e afirma que alguns casos só podem ser explicados à luz da teoria da reencarnação em seu Life After Death. Jim Tucker, em Life Before Life, lembra que, no caso de Gnanatilleka Baddewithana, a menina havia reconhecido os membros da família prévia enquanto os pesquisadores iam trazendo-os um por vez.

Enfim, exponho aqui algumas críticas ao trabalho do dr. Stevenson apontando suas respectivas antíteses com objetivo de sugerir e incentivar um comportamento crítico leal. Não tenho nada contra ideologias, seja cética ou sobrevivencialista. Não creio, ao contrário do falecido parapsicólogo Naum Kreiman [aqui], que ter ideologia é possuir espírito anticientífico. Acho esse pensamento demasiado radical e equivocado, eis que uma postura honesta do pesquisador, reconhecendo falhas em suas teorias preferidas e trabalhando com o fim de repará-las, não infere que ele manipule dados ou não oficie segundo as exigências da observação científica. Por último, não acredito na existência desse tal pesquisador destituído de qualquer ideologia e que perquire friamente a verdade. Sinceramente, o mito do pesquisador máquina não deixa de ser ideológico. A partir de um momento, provavelmente todos almejam defender seus pontos de vista. A divisa do pesquisador científico idôneo do inidôneo talvez apenas seja, quanto a este último, em manipular objetivamente os dados, forjando ou omitindo.

Exibições: 1222

Responder esta

Respostas a este tópico

Fiz uma leitura dinâmica ao texto introdutório a tema.

Raciocínio somente através de conceitos das palavras. O que é ALMA? o que é ESPÍRITO? o que é Crânio? o que é ENCÉFALO? o Cérebro são os dois? o crânio e o encéfalo. Estudei um pouco neurociência, há um enorme debate desde a idade média na neurociência sobre o vínculo do pensamento com o cérebro, ele é independente?  Eu não tenho Alma, para mim o conceito de alma, é aquilo que dá animação ao corpo biológico, alma vêm do Latim, anima. Eu sou aquilo que chamam de espírito, não conheço a minha idade e nem de onde em vim. Deja vu, é termo francês que significa em português, já visto, é aquela sensação que o que está ocorrendo não é novidade, p. ex. eu tive um sonho em 2008, o escrevi em um papel, e agora em 2015 ele está ocorrendo.  Não gosto do termo reencarnação, prefiro o termo evolução/involução espiritual. Já li o livro a reencarnação segundo a Bíblia e a Ciência e tenho formação Kardecista. Recentemente tem neurocientistas estudando o funcionamento do cérebro dos médiuns quando eles estão psicografando, aguardo com ansiedade o resultado desse estudo. Em 2011 a OMS classificou a CID 10 F 44.3 (estado de transe e possessão). Entendo que o grande problema na aceitação da reencarnação é a identificação da pessoa com o seu corpo biológico, ela é o seu corpo físico, todos nós nos identificamos com o corpo, por isso falamos que a pessoa morreu, que ela foi sepultada. A grande pergunta sobre esse assunto é a explicação sobre a distinção da personalidade dos irmãos, origem do tipo popular, os dedos da mão não são iguais, eu, por exemplo, sou completamente diferente dos meus dois irmãos e duas irmãs, apesar da mesma árvore genealógica e história familiar. Freud tentou explicar isso, mas já é considerado um charlatão, como disse o  filósofo francês Michel Onfray no seu livro O Crepúsculo de um Ídolo - A Fabulação Freudiana. Estou esperando a tradução para lê-lo, odeio psicologia. Quem estiver interessado veja aqui http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/52/artigo18751...

Responder à discussão

RSS

Sobre

Badge

Carregando...

Leia Isto!

Traduzir para/Translate to:


Visualizações

contador de visitas online

Se esta é a sua 1ª visita ou se passou por aqui, mas não quis comentar nem publicar nada, assine o nosso livro de visitas!

Irreligiosos.ning.com website reputation

Recados Rápidos

 

 

Links Indicados

Sites da Rede DDD: . . . . . . .Logo Rede DDD Acessar links dos sites Baú do Inexplicado Outros:
visit Skeptic.com

Sociedade Racionalista

ComunidadeO Outro Lado das ReligiõesBULE VOADORInternet Infidels Visitar o Observatório

GeraLinks

Badges do Irreligiosos

Nosso badge no seu blog:

Link o Irreligiosos


(Clique aqui para saber como!)


Enquete Jesus Cristo


Sua opinião sobre Jesus Cristo:
Acesse o post de apoio;

----------------
Acesse a nossa página PESQ para responder à enquete.

 


Notícias Cristãs

Atenção: As notícias aqui divulgadas não são nossas recomendações e são veiculadas apenas para informar os últimos acontecimentos e eventos do cristianismo.

(Se a exibição falhar, não é culpa nossa e sim do Widget. Não se preocupem, elas voltam depois)

Por Gospel+ - Gospel+ Noticias

Grupos

Principais Colaboradores

Abaixo, destacamos (em ordem alfabética) a 4ª lista dos nossos  mais eminentes e constantes colaboradores:

  • Alfredo Bernacchi
  • Assis Utsch
  • Carlos Dosivan
  • Divina J. Scarpim
  • Erijosé Oliveira
  • Gilberto Vieira
  • Jorge O. Almeida
  • Luísa L.
  • Márcia Zaros
  • Marilda Oliveira
  • Oiced Mocam
  • Paulo Luiz  
  • Paulo Rosas 
  • Rafael Rocha
  • Sergio M. Rangel

© 2018   Criado por Ivo S. G. Reis.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço