Irreligiosos

Se você não sabe, aceita e não questiona, embota-se e acaba virando crente.

Religião, para o bem ou para o mal, na visão de Leonardo Boff

Vamos ter de, mais uma vez, falar de religião, dos seus males e benefícios (???) mas, desta feita, sob a ótica de Leonardo Boff.  Antes que alguém estranhe e pergunte "Por que Leonardo Boff?, se o seu pensamento colide, em muitos pontos, com o pensamento predominante dos membros da Comunidade Irreligiosos, à qual pertencemos? ". Bem, já que estou criando o texto e publicando-o em nossa comunidade, acho que cabe a mim explicar e justificar.

São duas as principais razões: Primeiramente, porque todas as críticas que nós, irreligiosos, fazemos às religiões, são olhadas com suspeição, por conta das ideias que defendemos. Já se vindas de Leonardo Boff, um respeitado teólogo, professor de teologia, ex-frade franciscano, consolidador da Teologia da Libertação em nosso país, "temente a Deus", admirador dos "ensinamentos de Jesus Cristo" (???), conhecido internacionalmente e autor de vários e premiados livros religiosos, aí, a coisa muda. 

Como eu disse, essas são as principais razões, mas há ainda uma outra, não tão menos importante: a visão crítica de Leonardo Boff sobre as instituições religiosas é quase perfeita e, nesse sentido, chega a coincidir com o que vimos denunciando, criticando ou defendendo. Nessas horas, ele consegue descontaminar um pouco o seu pensamento e focar-se na realidade, com um acurado sentido de observação, tendo a coragem necessária para expor seus pontos de vista, mesmo quando contrários aos que as religiões propagam. De destacar que, como reforço, Boff é ainda, dentre outros, detentor do Prêmio Nacional de Direitos Humanos (1992) e um respeitadíssimo ambientalista, preocupado com a natureza e a preservação da vida no planeta.

Dito isto, espero ter explicado e justificado a escolha pelo autor. Para complementar, apresento abaixo o seu texto, cuja leitura recomendo a todos, religiosos, irreligiosos e sem-religião:

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Colunista  

02/11/2015 - Copyleft                  

A religião pode fazer o bem melhor e também o mal pior

O papa Francisco nos está resgatando o Cristianismo como movimento, como encontro entre as pessoas e com o Cristo vivo e a misericórdia ilimitada

Tudo o que é sadio pode ficar doente. Também as religiões e as igrejas. Hoje particularmente assistimos a doença do fundamentalismo contaminando setores importantes de quase todas as religiões e igrejas, inclusive da Igreja Católica. Há, às vezes, verdadeira guerra religiosa. Basta acompanhar alguns programas religiosos de televisão especialmente, de cunho neopentecostal, mas também de alguns setores conservadores da Igreja Católica, para ouvir a condenação de pessoas ou de grupos, de certas correntes teológicas ou a satanização das religiões afro-brasileiras.

A expressão maior do fundamentalismo de cunho guerreiro e exterminador é aquele representado pelo Estado Islâmico que faz da violência e do assassinato dos diferentes, expressão de sua identidade.

Mas há um outro vício religioso, muito presente nos meios de comunicação de massa especialmente na televisão e no rádio: o uso da religião para arrebanhar muita gente, pregar o evangelho da prosperidade material, arrancar dinheiro dos fregueses e enriquecer seus pastores e auto-proclamados bispos. Temos a ver com religiões de mercado que obedecem à lógica do mercado que é a concorrência e o arrebanhamento do número maior possível de pessoas com a mais eficaz acumulação de dinheiro líquido possível.

Se bem repararmos, para a maioria destas igrejas midiáticas, o Novo Testamento raramente é referido. O que vigora mesmo é o Antigo Testamento. Entende-se o porquê. O Antigo Testamento, exceto os profetas e de outros textos, enfatiza especialmente o bem estar material como expressão do agrado divino. A riqueza ganha centralidade. O Novo Testamento exalta os pobres, prega a misericórdia, o perdão, o amor ao inimigo e a irrestrita solidariedade para com os pobres e caídos na estrada. Onde que se ouve, até nos programas católicos, as palavras do Mestre: “Felizes vocês, pobres, porque de vocês é o Reino de Deus”?

Fala-se demais de Jesus e de Deus, como se fossem realidade disponíveis no mercado. Tais realidades sagradas, por sua natureza, exigem reverência e devoção, o silêncio respeitoso e a unção devota. O pecado que mais ocorre é contra o segundo mandamento: ”não usar o santo nome de Deus em vão”. Esse nome está colado nos vidros dos carros e na própria carteira de dinheiro, como se Deus não estivesse em todos os lugares. É Jesus para cá e Jesus para lá numa banalização dessacralizadora irritante.

O que mais dói e verdadeiramente escandaliza é usar o nome de Deus e de Jesus para fins estritamente comerciais. Pior, para encobrir falcatruas, roubo de dinheiros públicos e de lavagem de dinheiro. Há quem possui um empresa cujo título é “Jesus”[refere-se à empresa "Jesus.com", do deputado federal, Eduardo Cunha]. Em nome de “Jesus” se amealharam milhões em propinas, escondidas em bancos estrangeiros e outras corrupções envolvendo bens públicos. E isso é feito no maior descaramento.

Se Jesus estivesse ainda em nosso meio, seguramente, faria o que fez com os mercadores do templo: tomou o chicote e os pôs a correr além de derrubar suas bancas de dinheiro.

Por estes desvios de uma realidade sagrada, perdemos a herança humanizadora das Escrituras judeo-cristãs e especialmente o caráter libertador e humano da mensagem e da prática de Jesus. A religião pode fazer o bem melhor mas também pode fazer o mal pior.

Sabemos que a intenção originária de Jesus não era criar uma nova religião. Havia muitas no tempo. Nem pensava reformar o judaismo vigente. Ele quis nos ensinar a viver, orientados pelos valores presentes em seu sonho maior, o do Reino de Deus, feito de amor incondicional, misericórdia, perdão e entrega confiante a um Deus, chamado de “Paizinho” (Abba em hebraico) com características de mãe de infinita bondade. Ele colocou em marcha a gestação do homem novo e da mulher nova, eterna busca da humanidade.

Como o livro dos Atos dos Apóstolos o mostra, o Cristianismo inicialmente era mais movimento que instituição. Chamava-se o “caminho de Jesus”, realidade aberta aos valores fundamentais que pregou e viveu. Mas na medida em que o movimento foi crescendo, fatalmente, se transformou numa instituição, com regras, ritos e doutrinas. E aí o poder sagrado (sacra potestas) se constituiu em eixo organizador de toda a instituição, agora chamada Igreja. O caráter de movimento foi absorvido por ela. Da história aprendemos que lá onde prevalece o poder, desaparece o amor e se esvai a misericórdia. Foi o que infelizmente aconteceu. Hobbes nos alertou que o poder só se assegura buscando mais e mais poder. E assim surgiram igrejas poderosas em instituições, monumentos, riquezas materiais e até bancos. E com o poder a possibilidade da corrupção.

Estamos assistindo a uma novidade que cabe saudar: o Papa Francisco nos está resgatando o Cristianismo mais como movimento do que como instituição, mais como encontro entre as pessoas e com o Cristo vivo e a misericórdia ilimitada que a férrea disciplina e doutrina ortodoxa. Ele colocou como Jesus, a pessoa no centro, não o poder, nem o dogma, nem o enquadramento moral. Com isso permitiu que todos, mesmo não se incorporando à instituição, podem se sentir no caminho de Jesus na medida em que optam pelo amor e pela justiça.

Fonte: Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/A-religiao-pode-fazer-o-bem-melhor-e-tambem-o-mal-pior/34885)

Nota: Os textos em negrito são grifos nossos. Igualmente as inserções [...], permitidas, já que o texto é "copyleft".

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Resumindo, Leonardo Boff, apesar de crente em Deus, parece não concordar com os rumos que se está dando às religiões, que estão se desviando do seu objetivo principal: congregar e levar conforto espiritual aos necessitados. Ao invés disso, elas estão se prestando a um papel condenável e daninho: a doutrinação negativa e mentirosa, a incitação ao ódio e à violência, a imbecilização, a escravização mental religiosa e a exploração dos fiéis incautos. Destaque-se que tudo isso é feito impunemente, e aqui, no Brasil, sob o manto protetor da nossa Constituição Federal. 
É o que ele e também nós condenamos.

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Comentário de Carlos Dosivan em 6 janeiro 2016 às 11:38

Boff, além de tudo o que vc já falou a respeito dele, mostrou tbm a sua veia "profética". Em entrevista à revista IstoÉ, em 28 de maio de 2010, segundo pode se ler neste endereço: http://bit.ly/b8MQBZ

Ele disse a respeito do então papa Bento XVI: “O Papa, para seu próprio bem e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão. É um homem doente, velho, com problemas próprios da idade e com dificuldades para a administração, porque é mais professor do que pastor. Por esse motivo faria bem em ir para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade que sofre, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina”.

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